A exposição “Trilhas ao Luar” parte de um entendimento da arte contemporânea como meio de prospecção de valores pretéritos e como sedimentação de símbolos e arquétipos que acompanham a evolução da cultura brasileira.
Este trabalho visa a uma reflexão sobre a memória ancestral e resulta de longa pesquisa sobre técnicas antigas \arcaicas de trabalho do barro confrontadas com linguagens e práticas tridimensionais contemporâneas. O reconhecimento da poética, do universo mítico e dos valores filosóficos que criaram as velhas técnicas nos levou à retomada de métodos de trabalho de barro esquecidos ou praticamente desaparecidos dos ateliês e olarias dos mestres ceramistas. Nesse processo, além dos aspectos técnicos, também são recuperados elementos gráficos presentes nos objetos de cerâmica no contexto de uma poética atual que busca a transcendência da obra artística enquanto matéria. A idéia principal é oferecer uma experiência contemporânea de lugar, onde se vivenciam questionamentos locais e universais.
A linguagem da instalação se apóia nas idéias de percurso, como síntese espaço-temporal da percepção, e de processo, em vez de um evento instantâneo. A montagem não é pensada como uma simples mostra de objetos mas sim como algo cênico, dominado por peças que resultam da simbiose de terra e fogo, num contexto de sons, luz, cheiros, texturas e cores, que nos empurra a questionar o palco cotidiano no qual nos movemos.
Espera-se provocar no visitante um estranhamento a partir do qual se ativa a memória oculta pela que se revelarão saberes adormecidos. Entende-se que a dimensão do intangível só pode ser perscrutada com uma vagarosa e profunda reflexão entre as informações externas que recebemos pelos nossos sentidos e os dados aportados pela nossa consciência interior. Esta exposição explora a sutileza de idéias que revelam-se aos poucos pela meditação enquanto se percorre a instalação.
Arte Ritual no Vale do Capão
A concepção orgânica da instalação proposta, tanto da montagem como das formas e materiais escolhidos, basicamente decorre do contexto cotidiano dos artistas no entorno do Parque Nacional da Chapada Diamantina. O fio condutor do trabalho resgata as essências da vivencia humana em suas manifestações rituais cotidianas (nascimento, alegria, nostalgia, dor, morte, festa) como meio de transcendência e comunicação\comunhão com dimensões metafísicas. O mundo dos mortos, pelo culto aos ancestrais, e o mundo dos sonhos, como percurso ao passado e projeção de futuro, são fontes de imagens, inspiração e premonição para a criação artística. A retomada do ato criador enquanto ritual constitui uma atitude de entrega e afeto da qual resultam objetos novos e originais porem com remniscencias ancestrasis, entendendo o passado como matéria contemporânea e não como algo congelado no tempo.
As grandes questões que se colocam são: qual é o valor que damos à memória? Como construímos nossos valores esenciais? Qual o legado que estamos a construir? Num mundo cada vez mais pautado pelo imediatismo e a efemeridade das coisas, e sistematicamente condicionado por objetivos pragmáticos e mercadológicos, constata-se uma demanda silenciosa de revalorização de nossa ancestralidadecomo reencontro com a Mãe Terra e preservação de nosso patrimonio ambiental do qual nossa cultura faz parte.

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